Cultura / Artes visuais
O pão, a arte e a vida de Fúlvia Gonçalves
Aos 89 anos, artista visual que marcou a história cultural de Campinas abre sexta-feira (16), exposição inédita inspirada no percurso do trigo até sua transformação em alimento
Um grão de trigo guarda uma história que começa muito antes de chegar à mesa. Há a terra, a semeadura, o tempo de espera, a colheita e o trabalho das mãos que transformam a matéria em alimento. Em cada etapa, a vida se renova. É dessa travessia, tão cotidiana quanto ancestral, que parte Fúlvia Gonçalves para construir “O Pão”, série inédita que será apresentada a partir de sexta-feira (16), na Galeria Espaço 800, em Campinas, com entrada gratuita. Aos 89 anos, a artista visual, uma das figuras fundamentais da trajetória das artes plásticas na cidade, transforma um gesto universal em reflexão sobre a existência, a espiritualidade e a passagem do tempo.
Realizada em pastel sobre papel Arches, a série percorre simbolicamente o caminho do trigo, da semeadura à transformação pelas mãos humanas. O pão, alimento presente na história de diferentes povos e culturas, aparece como matéria e metáfora. É sustento, trabalho, partilha e rito. Em sua dimensão simbólica, remete também à ideia de sacrifício e renovação, aproximando o percurso do alimento de uma via-sacra. O resultado é uma sequência de imagens que convida o visitante a olhar para aquilo que, de tão presente na vida cotidiana, muitas vezes deixa de ser percebido em toda a sua profundidade.
“Num grão de trigo habita alma infinita”, afirma Fúlvia, sintetizando a perspectiva poética que orienta a exposição. A frase concentra uma das possibilidades de leitura de seu trabalho: encontrar, na simplicidade das coisas, uma dimensão que ultrapassa sua aparência imediata. O grão é pequeno, mas carrega a potência da germinação. O pão é alimento, mas também reúne memórias, crenças e experiências coletivas.
A exposição marca um encontro entre a pesquisa artística de uma trajetória extensa e um tema que atravessa a história da humanidade. Em “O Pão”, essa herança se converte em linguagem visual, sem perder de vista a materialidade do desenho e a relação entre forma, gesto e significado.
A série foi produzida em 2020 e permaneceu como um dos trabalhos importantes da fase mais recente da artista. Para Beto Mallmann, artista visual, curador da exposição e responsável pelo Espaço 800, apresentar esse conjunto representa uma oportunidade de aproximar o público de uma obra que ocupa lugar expressivo na história cultural de Campinas.
“Estou fazendo essa exposição, primeiro, pela importância do trabalho da Fúlvia e pelo que ela representa para as artes em Campinas. Historicamente, é uma artista que produz desde a década de 1970. Para mim, é uma honra trazer para o meu espaço esse trabalho e essa artista”, afirma Mallmann. “Acredito que seja uma grande homenagem. É emocionante poder apresentar uma exposição dessa dimensão. É um acontecimento muito forte para a galeria e, para mim, como curador”, afirma Mallmann.
A mostra ganha um segundo eixo com a série “Humanidade”, composta por pinturas em tinta acrílica sobre tela. Nelas, a figura humana surge por meio de empastes e soluções plásticas desenvolvidas por Fúlvia ao longo de sua pesquisa. O diálogo com “O Pão” amplia a leitura da exposição: se o trigo e o alimento remetem à origem, à transformação e à continuidade da vida, o corpo humano traz para o centro da cena as inquietações, os vínculos e as contradições da experiência de existir.
A aproximação entre as duas séries permite observar diferentes dimensões de uma mesma investigação. A artista parte de imagens reconhecíveis, mas não se limita à representação literal. Interessa-lhe a possibilidade de fazer da forma um caminho para acessar aquilo que não se vê imediatamente: a dimensão subjetiva dos acontecimentos, os sentimentos que atravessam os indivíduos e os significados que se acumulam em objetos e gestos aparentemente comuns.
Essa preocupação acompanha sua produção há décadas. Em texto crítico sobre sua obra, o jornalista, historiador e crítico de arte Pedro Manuel Gismondi destaca justamente a maneira como Fúlvia investiga a figura humana, por vezes aproximando-se de sua dimensão interior, em situações que transitam entre o dramático, o imaginário e o fantástico.
Gismondi observa que, mesmo quando a artista retorna à representação exterior do corpo, suas figuras permanecem ligadas a elementos simbólicos e espaços metafóricos. Em sua análise, as relações humanas, a solidariedade e a solidão não aparecem apenas como temas: são construídas também pela organização das formas, pelo uso da cor e pelos traços que estruturam a composição.
O crítico ressalta ainda a personalidade de sua linguagem cromática e a relação entre os contornos e as áreas de cor. A expressividade, nessa perspectiva, nasce da integração entre tema e estrutura visual. É por meio das escolhas formais que a artista constrói uma visão particular do mundo, marcada pela liberdade interpretativa e pela imaginação.
Essa leitura ajuda a compreender por que “O Pão” ultrapassa a representação de uma sequência de etapas da produção de um alimento. A travessia do trigo pode ser vista como uma narrativa sobre o trabalho, o tempo e a transformação, mas também como uma reflexão sobre a condição humana. O pão, que depende de uma cadeia de gestos e conhecimentos, remete à dimensão coletiva da existência. A obra, por sua vez, transforma essa experiência compartilhada em uma construção singular.
Obras de Fúlvia Gonçalves



As obras retratam personagens e suas emoções em composições que transitam entre o dramático, o imaginário e o fantástico. Fotos: Divulgação.
Nascida em Pedreira, no interior paulista, Fúlvia iniciou cedo sua trajetória nas artes. Depois de se formar na Faculdade de Artes Plásticas, em Ribeirão Preto, começou a lecionar ao lado de artistas e professores como Bassano Vaccarini, Leonelo Berti e Francisco Amendola. A partir dessa experiência, passou a participar de exposições em galerias, museus e salões oficiais no Brasil e no exterior.
Em 1976, Fúlvia chegou a Campinas para trabalhar com ensino e pesquisa na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). Sua atuação esteve ligada à criação do curso de Educação Artística, com habilitação em Artes Plásticas, e à implantação da pós-graduação na área. Também participou de iniciativas que contribuíram para a estruturação dos cursos de extensão e do próprio Instituto de Artes da universidade.
Aos 89 anos, Fúlvia mantém o trabalho em seu ateliê, instalado no apartamento onde mora em Campinas. O ritmo é mais leve, como ela própria descreve, mas os projetos expositivos continuam a fazer parte de sua rotina. A mostra no Ateliê Espaço 800 é a terceira exposição individual ou apresentação expositiva de seu trabalho neste ano, depois de participações no Museu de Arte Contemporânea de Campinas (MACC) e na Unicamp.
Em outubro, a artista também participa de uma exposição coletiva no Espaço Cultural do Tribunal Regional do Trabalho da 15ª Região (TRT-15), em Campinas, na qual apresentará, entre outras obras, “Monalisa à Luz das Sombras”. Na ocasião da abertura de “O Pão”, pretende entregar exemplares do livro “O Código de Fúlvia”, lançado em 2025, que reúne imagens e textos sobre sua trajetória artística.
A continuidade da produção, mesmo com as mudanças impostas pelo tempo, é parte importante da relação de Fúlvia com a arte. Não se trata apenas de preservar uma atividade iniciada na juventude, mas de manter aberta a possibilidade de investigar, experimentar e atribuir novos sentidos ao mundo. “Este trajeto é uma relação com o espaço e o tempo. É mais uma reflexão que registra na arte princípios poéticos que se mantêm ao longo de uma ampla jornada”, explica a artista.
Criada em 2019, a Galeria Espaço 800 nasceu com a proposta de receber artistas de diferentes gerações e linguagens. Sob a curadoria de Beto Mallmann, a galeria já abrigou mais de 25 exposições, reunindo nomes como Dimas Garcia, João Bosco e Acácio Pereira, além de artistas em diferentes momentos de suas carreiras. A escolha de Fúlvia para esta mostra reforça o vínculo do espaço com a produção artística de Campinas e com a valorização de trajetórias que ajudaram a construir sua história.
Informações da exposição
Exposição: O Pão — Fúlvia Gonçalves
Abertura: sexta-feira, 16 de outubro de 2026, a partir das 19h
Local: Espaço 800 — Rua Frei Antônio de Pádua, 800, Guanabara, Campinas (SP)
Entrada: gratuita
Informações: @espaco800.art








